Férias comunitárias – A experiência do serviço

É comum, neste tempo de Natal, depararmo-nos com gestos solidários que por mais pequenos que possam ser fazem a diferença na vida de quem os recebe mas também na de quem os dá. Recordamos uma dessas experiências, realizada anualmente e que se torna atual e preciosa para vivermos este tempo em plenitude.

As Férias Comunitárias são uma atividade organizada pelos jovens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Olivais Sul desde os anos 80. Em Agosto, aproveitando as férias escolares, o grupo de jovens da paróquia parte para as aldeias do Concelho de Mértola, uma das zonas mais desertificadas e mais pobres do país, onde se nota uma grande carência de bens e de afectos. É em pleno Alentejo que o grupo permanece durante cerca de dez dias no serviço à comunidade. É um tempo para deixar as coisas do dia-a-dia, sem as quais os jovens pensam não conseguir viver. É partir em espírito de serviço, entrega e partilha. É uma oportunidade para, longe das rotinas habituais, se tentar viver um pouco mais ao jeito de Jesus Cristo. As Férias Comunitárias são antes de mais uma atividade missionária, o principal objectivo é anunciar Cristo e o Evangelho, em palavras e gestos. Assim, todos os dias o grupo organiza uma oração comunitária ou celebração da palavra na capela da aldeia para dar às pessoas a experiência de rezar em conjunto. Quando é possível celebrar a Eucaristia os jovens animam a celebração com cânticos.

 

EVANGELIZAR

As poucas crianças que se vão encontrando nas aldeias vêm ao encontro dos jovens e à procura do que estes têm para lhes dar. Para além de cantigas, jogos e brincadeiras, há sempre um momento durante a tarde em que a catequese se torna propícia. Aí torna-se evidente a sede que estas crianças têm de Jesus! Os poucos catequistas que existem nas aldeias, apesar de fazerem um trabalho notável, nunca conseguem chegar a todos. Mas o mais difícil é chegar aos jovens. Como evangelizar os poucos jovens que permanecem nessas aldeias e que têm uma vida tão diferente da nossa, citadinos lisboetas? Como chegar, criar pontes e partilhar a nossa vida com jovens tão diferentes de nós? Como anunciar esse Jesus Cristo Vivo a jovens que fingem desinteresse? É aí que o esforço é redobrado! É através do convívio, da partilha livre de ideias que se vão encontrando elos de ligação. Afinal, todos os jovens partilham a mesma esperança de um futuro melhor, todos têm a mesma vontade de mudar o mundo.

 

IR AO ENCONTRO DA COMUNIDADE

Na aldeia existe uma pessoa de contacto que fica encarregue de acolher os jovens. Normalmente ficam hospedados numa casa cedida pela aldeia, pode ser a escola primária, a casa do povo ou o salão paroquial. A vivência é feita na simplicidade e no desapego. Os jovens dormem no chão em sacos-cama e as refeições, preparadas pelo grupo, são à base de receitas simples. É também da responsabilidade da pessoa de contacto mostrar aos jovens as pessoas que estão doentes, acamadas e/ou sós e que gostariam de ser visitadas. A visita à casa das pessoas é uma das formas mais sinceras de contacto. As conversas estendem-se durante horas, partilham-se histórias de vida e os jovens oferecem aquilo que podem, o seu tempo e a sua disponibilidade para escutar aquele outro que ali encontram e que revela o próprio rosto de Jesus. Essa experiência é também feita no lar de Mértola quando, depois da Eucaristia, os jovens ficam durante uma tarde a fazer companhia aos idosos que lá vivem.

 

VIVÊNCIA EM GRUPO

Na aldeia, uma parte do dia é dedicada à vivência de grupo, sem a comunidade. De manhã, é feita uma oração que dá forças para mais um dia que será muitas vezes longo e cansativo. Para haver coesão e crescimento é necessário que o grupo partilhe e cresça junto. Assim, os jovens trazem um tema para discutir em cada dia. Estes momentos são especialmente importantes para os que fazem a experiência pela primeira vez e não estão habituados a discutir as questões da fé com abertura. Apesar dos dias serem virados para a comunidade também há espaço para momentos mais lúdicos. À noite é frequente os jovens animarem a esplanada do café com músicas populares. Quando há oportunidade, também se vai a banhos com os jovens da aldeia na mina de S. Domingos, nos canais do Guadiana ou na Barragem do Chança e, por vezes, ainda há ocasião para participar nas festas e bailaricos de Verão que vão ocorrendo durante essa semana nas aldeias. São momentos em que se partilha a alegria. PONTO DE ENCONTRO Quando os dias cheios passados na aldeia chegam ao fim, regressa-se à Casa Paroquial de Mértola para o chamado “Ponto de Encontro”. Este é um espaço e um tempo para a partilha do que foi a experiência em cada aldeia porque, normalmente, o grupo se encontra dividido por diferentes locais. A experiência das Férias comunitárias é única. O grupo nunca é o mesmo, a aldeia nunca é a mesma. Todos os anos, há alguma coisa nova que cada jovem traz consigo: um rosto, uma Palavra, um sorriso, uma experiência. É o próprio Jesus que se vai revelando cada vez que nos entregamos de coração.

 

 

Testemunhos de quem já fez a experiência

 

De coração aberto para O seguir

“Começo pela última frase do Evangelho de São João: “Eu sou o pão da vida: quem vem a mim nunca mais terá fome, quem acredita em mim nunca mais terá sede”. Esta parábola de Jesus demonstra tudo aquilo que nós devemos fazer para que na curta passagem que temos pela nossa vida seja sempre vivida em união com o Amor.

Encontrar verdadeiramente Jesus Cristo não é fácil. Temos de ser persistentes e ao mesmo tempo humildes, de coração sincero.

O meu Amor por Jesus nasceu em mim, ainda muito pequena quando puxava pela saia da minha avó para irmos à missa, não sabia muito bem aquilo que lá ia fazer, mas vinha sempre muito feliz.

O tempo passou e a caminhada junto de Deus prossegue, dentro da idade normal, primeira comunhão, depois mais tarde o Crisma (este com um esforço muito grande porque os jovens eram poucos e a desmotivação era grande), mas na graça de Deus, o Espírito Santo desceu sobre mim e encheu-me da força do Senhor.

Como na aldeia nunca houve um grande número de jovens a frequentar a igreja, ainda em criança, a minha alegria nas férias de Verão era aquela semana em que vinham uns jovens não sabia bem de onde, mas que traziam muita alegria, boa disposição e Jesus Cristo Vivo.

Sempre me identifiquei muito com os grupos de jovens das Férias Comunitárias, e muitas vezes me perguntei a mim mesma o porquê de nós nossa paróquia também não termos um grupo de jovens para Evangelizar, para anunciar e proclamar as maravilhas de Jesus.

Mas temos de dar tempo ao tempo sabendo que os resultados não surgem de um dia para o outro. Todos os grupos que passam vão deixando a sua marca e ao mesmo tempo deixam Jesus Cristo no coração daqueles que ainda não o encontraram e fortificam aqueles que já o conhecem.

A forma de dizer a Deus o “muito obrigado” por colocar todos estes jovens no meu caminho, é recebe-los com “muitos miminhos”, pois é assim que Jesus se torna o pão da vida.

Tudo aquilo que fiz, faço e farei, não é para ser a “menina bonita”, muito menos para receber agradecimentos, pois só a Deus temos de agradecer, mas é sim para permanecer junto do meu ídolo (Jesus Cristo), para desse modo poder evangelizar como Ele nos ensinou.

Estou sempre de coração aberto para tudo o que for necessário e deixo um apelo: deixem tudo e sigam Jesus pois só assim vão encontrar o verdadeiro amor, bem como o sentido da vida.

Ana Cristina Colaço

(Catequista de Mértola)

 

Encontrei Deus com os outros

“Quando recordo as Férias Comunitárias, vêm-me à memória momentos muito importantes da minha vida. Foram 14 anos em que participei, quer em aldeias, acampamentos, no ponto de encontro ou apenas na sua preparação.

Foram anos em que cresci e aprendi muito. E aquilo que encontrei pode resumir-se em poucas palavras.

Nas Férias Comunitárias eu encontrei Deus com os outros.

Eu – que faço um esforço para ir ao encontro de Deus e dos outros. Que me sujeito ao cansaço, ao calor, a pessoas que não me são simpáticas à partida (mas que me irão surpreender), a fazer algumas coisas que não gosto (e outras que gosto), que principalmente me disponho a aprender, a mudar, a ser surpreendido, a fazer um esforço, a descobrir também um pouco melhor quem eu sou.

Os outros – são indispensáveis para encontrar Deus. Não o conseguirei encontrar sozinho. Mesmo que seja rejeitado, ridicularizado, ignorado (que pode acontecer por vezes), se não for ao encontro dos outros, não conseguirei encontrar Deus. É com os outros que partilho, que aprendo e que ensino, que ajudo e sou ajudado.

Deus – Sempre presente, no encontro com os outros, na oração, na reflexão, na partilha. Sempre à espera que Lhe abram a porta, que O deixem iluminar o nosso coração.

Nem sempre foram momentos fáceis, principalmente aqueles em que vamos mais longe, em que fazemos mais, em que somos mais. Mas esses passos que damos vão fazendo parte do nosso caminho e ajudam-nos a chegar mais longe.

Se poderia fazer este caminho, sem ir às Férias Comunitárias? Poder podia, mas não era a mesma coisa. De certeza que há outros caminhos, outras atividades que nos permitem crescer, chegar a Deus e aos outros e assim descobrir um pouco o plano que Deus tem para mim. Mas esta foi a oportunidade que me foi dada, e que agora também é dada a outros.

Ir às Férias Comunitárias, para além das cantigas, brincadeiras, viagens, histórias para contar, é uma oportunidade para ver aquilo que Deus tem guardado para cada um. Quando damos lugar na nossa vida ao serviço, à partilha, à oração, ao perdão, então Deus torna-se presente, e aquilo que ouvimos falar na Eucaristia ou aprendemos na catequese torna-se realidade: Jesus está no meio de nós.”

Vasco Amaral

 


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