Projecto SABI – Depois da missão

Na passada edição de 15 de Julho do Jornal VOZ DA VERDADE, o Serviço da Juventude do Patriarcado de Lisboa foi saber quais as perspectivas de duas voluntárias do projecto SABI, da paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes – Parque das Nações, que se preparavam para partir em missão. Depois do regresso, fomos novamente ao encontro da Mafalda e da Maria Pia para que partilhassem a experiência vivida na Casa de Saúde Mental do Telhal e em São Tomé e Príncipe, respectivamente. As suas partilhas genuínas mostram-nos como é possível viver a felicidade nos pequenos gestos e através do simples olhar de quem se cruza connosco.

 

Mafalda Lima

“A missão passa muito pela nossa vida”

Missão na Casa de Saúde Mental do Telhal, Sintra

Semana em missão na casa de saúde do Telhal

Terminavas a última entrevista afirmando: “Vou inteiramente disponível para receber e para dar, através da entrega aos outros.” O que é que recebeste?

Após a chegada, tive tempo para digerir e pensar nas duas semanas de missão. Sinto que aprendi inúmeras coisas que para mim foram uma novidade. Aprendi que a felicidade não precisa de ter dois braços e duas pernas. Por vezes temos a ideia de que para sermos felizes precisamos de ter tudo conforme nós idealizamos. Ali eu vi pessoas com uma série de dificuldades físicas e psicológicas mas todas elas eram felizes porque percebi que, para existir felicidade, apenas é necessário que nós consigamos construir uma relação uns com os outros. Na Casa de Saúde do Telhal, as pessoas vivem numa autêntica família e basta isso para serem felizes. Encontrei pessoas que apesar das suas situações graves ainda encontram variadas formas de brincar e de comunicar connosco, sempre em grande alegria. Receber tudo isto de uma forma espontânea e genuína foi uma grande bênção!

Qual a grande novidade que esta missão te trouxe?

O público-alvo das experiências anteriores foram crianças e os seus familiares. Neste caso, nós estivemos numa casa onde existem pessoas que têm algumas doenças e dificuldades graves, mas que vivem efectivamente em família, com enfermeiros e auxiliares. Por isso, a grande novidade foi deparar-me com a existência de uma família. A minha missão e a do restante grupo foi apenas acrescentar um pouquinho mais a estes doentes com a nossa alegria. Fico também muito tranquila porque, quando lá voltar, saberei que vou encontrar aquelas pessoas felizes. O facto de partir para uma missão com pessoas mais velhas fez com que, ao início, tivesse alguns receios sobre a forma de interagir com eles. Mas fui novamente surpreendida ao ver que era deles que partia a interacção.

Esta experiência também foi vivida por outros voluntários. Como foi o trabalho em grupo? Qual era a rotina diária?

Foi muito bom trabalharmos em grupo. Para além da presença de quatro voluntários do projecto SABI, estavam também connosco três missionários Combonianos que estavam a terminar uma experiência de dois meses naquela casa de saúde. As actividades foram assim preparadas por este grupo de sete elementos. Nós adaptámo-nos à rotina que já estava definida na casa. Acordávamos por volta das 7h, rezávamos Laudes, tomávamos o pequeno-almoço e por volta das 8h30 íamos para as unidades. Ajudávamos na distribuição do pequeno-almoço, na higiene pessoal e depois ainda nos sobrava algum tempo para fazermos as nossas actividades, tais como pintura ou desenho. Depois almoçávamos todos juntos. Pelas 13h voltávamos para as unidades onde ajudávamos a dar o almoço aos doentes. Na unidade onde estive existiam cerca de oito pessoas que não conseguiam comer autonomamente. Também nestes momentos de refeição foram-se criando e fortalecendo as relações entre todos. Depois, da parte da tarde, até às 17h30, o dia era preenchido com mais actividades. Tínhamos 30 minutos para nos prepararmos para a Missa. Pelas 19h voltávamos para casa e jantávamos ‘a correr’ e às 19h30 já estávamos prontos para levar o ‘carrinho’ com os jantares para as unidades. Aí começava a maior adrenalina do dia. No final das refeições foi muito importante ver que também os doentes se iam oferecendo para fazer a oração e acabavam por se deitar por volta das 21h. Apesar de complicado e demorado este era um momento de grande alegria entre todos. O regresso dos voluntários acontecia por volta 22h30. Terminávamos o dia com a oração da noite. Era o momento alto porque tínhamos a oportunidade de partilhar as dificuldades, os altos e os baixos do nosso dia. Nesse momento ganhávamos sempre força para o dia seguinte.

A partir desta experiência, qual é agora a tua missão?

Cada vez percebo mais que a minha missão é onde estou. Não preciso de ir para muito longe. A missão passa muito pela nossa vida. Desde o primeiro ano que parti em missão que nunca esqueci esta frase: “Nós podemos fazer a missão onde quer que estejamos, quer seja em nossas casas, na nossa família, com os nossos amigos, na escola, no trabalho, ou até com as pessoas que ainda não conhecemos”, como foi o meu caso. É perceber um pouco daquilo que Deus quer de mim e tentar pôr-me ao serviço. E esta é, sem dúvida, a missão de uma vida! Estar ao serviço dos outros, ao longo dos meus dias, com os meus amigos, os meus pais e irmãos.

 

 

Maria Pia Ornelas

“Estar com as pessoas”

Missão em São Tomé e Príncipe

Há dois meses atrás dizias que o projecto SABI baseava-se em quatro pilares fundamentais: “Eu, Tu, Nós, Ele”. O que é que este “Eu” viveu em São Tomé e Príncipe?

Este “Eu” viveu momentos de muita alegria e de muita partilha com o grupo de voluntários SABI. Senti que é muito importante o simples facto de “estar”. Estar ali, em cada momento, e não pensar no que vem a seguir. De início não foi fácil perceber isso, mas ao longo do mês fui aprendendo que o simples facto de “estar” com as pessoas e deixar que o tempo fosse só para isso era o fundamental desta missão. O Pe. Manuel, responsável pela paróquia onde estávamos, pediu-nos que estivéssemos atentos ao olhar das pessoas. Assim, percebi que através do simples olhar podemos conhecer mais profundamente cada pessoa, sobretudo através do olhar das crianças.

Como é ser Igreja em São Tomé e Príncipe?

Lembro-me de uma partilha de um voluntário que dizia que somos nós quem tem de se adaptar e não o contrário. Por isso, a nossa missão em Igreja foi adaptarmo-nos a esta realidade concreta. Naquele território existem inúmeras religiões e muitas exploram a fragilidade e desconhecimento de algumas pessoas. As pessoas procuram muito uma ajuda “instantânea” e por isso são pouco selectivas quanto ao caminho a seguir. Senti a falta da presença da Igreja Católica em alguns locais. No entanto, sinto que não é difícil dar testemunho da nossa fé porque eles aceitam-nos prontamente e estão disponíveis para receber o que lhes queremos levar.

Deste grupo de voluntários fez parte a tua irmã gémea. Como foi viver com ela esta experiência?

Foi bom viver esta missão com ela no mesmo grupo! Nem sempre foi fácil porque a confiança e à vontade que temos uma com a outra levou-nos a alguns desentendimentos mas fomos sempre um suporte importante uma da outra. Ainda por causa da importância do olhar, lembro-me de uma vez em que o dia não estava a correr bem e bastou olharmos uma para a outra, e sem falar, percebemos as duas que o melhor foi ir para a igreja onde procurámos a oração.

O que ficou feito com a vossa presença?

Um dos meus medos era o de não saber o que esta missão podia trazer de novo e no que iria deixar passado um mês. Hoje tenho a certeza que proporcionei uma série de experiências diferentes. Anualmente o projecto SABI tem mudado a vida de quem lá mora, sobretudo das crianças que podem assim sonhar com coisas novas. Por exemplo, no último ano, o grupo de voluntários SABI deu explicações numa casa de irmãs religiosas e para este ano já estava formado um campo de férias para continuar essa iniciativa, tornando presente as actividades que foram desenvolvidas, por outros voluntários, no passado. Vejo que, com tempo, este projecto faz muito sentido porque muda aquele espaço e a rotina das pessoas.

Mas ficou ainda muita coisa por fazer. Por isso, temos muita vontade de voltar! Tenho vontade de ver a continuidade daquelas crianças na escola. Lembro-me de uma menina que me dizia, com muito carinho, que gostava de sair de São Tomé para vir estudar e ser pediatra. Gostava de ver as crianças a concretizarem estes sonhos.

O que é que os teus amigos podem agora esperar de ti?

Muita gente tem-me perguntado isso. Esta missão foi as ‘férias’ de que eu precisava. Sinto que, com esta experiência, estou mais responsável e menos impulsiva nas minhas atitudes. Mas ainda há muita coisa para mudar, a começar por casa, mas sinto que com esta missão está a nascer o desejo de querer mudar. Por isso, tal como quando cheguei a São Tomé e Príncipe, é pôr mãos à obra!


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