Taizé em Roma – Palavras do Irmão David

No decorrer do 35º encontro europeu de Taizé que aconteceu entre os dias 28 de Dezembro e 2 de Janeiro, em Roma, tivemos a oportunidade de conversar com o único irmão português da Comunidade. O Irmão David partilhou connosco como foi a experiência de preparação deste encontro, bem como os ecos que foi recebendo de participantes e comunidade local.

 

Como é que foi preparar um encontro ecuménico em Roma, cidade a que nós normalmente associamos à Fé e à Igreja Católica?

 

R: Em todos os aspectos eu acho que quer o encontro em si, quer a sua preparação, foram algo de único. Estamos na cidade onde chegaram os primeiros cristãos, onde chegou Pedro e Paulo. Foi aqui que deram a vida pela fé, pelo amor a Cristo, para transmitir esta fé, e uma fé que está hoje viva e que vai passando de geração em geração. Quando vimos a Roma não vimos visitar ruínas, não vimos visitar um local arqueológico, vimos visitar esta Igreja viva, que recebeu um tesouro e que o procura transmitir, hoje.

É evidente que a nível ecuménico, e para responder directamente à pergunta, a Igreja Católica é muito presente em Roma e as igrejas protestantes e ortodoxas são muito pequenas e sobretudo comunidades estrangeiras. Foi, no entanto, muito interessante ver e sentirmo-nos acolhidos em todas as comunidades. Na Igreja Católica em toda a sua diversidade, porque há uma grande diversidade de vivências eclesiais dentro da Igreja Católica, existem muitas comunidades, muitos movimentos, muitos grupos. Depois há uma igreja Baptista, uma igreja Metodista, que são sobretudo alemãs, há uma igreja “valdese”, Italiana, há uma igreja ortodoxa russa, há uma igreja “copta”, Etiópia. Portanto, há várias comunidades, que são de facto muito pequenas, mas foi bonito ver a forma como todas elas acolheram esta iniciativa e anunciaram o encontro nas suas comunidades, convidando as famílias a participar e a acolher os jovens, tendo sido possível, inclusivamente, ter em algumas paróquias iniciativas do encontro: programa da manhã, workshops, orações… Todo o envolvimento foi muito interessante e que acho este encontro pode ter ajudado também estas Igrejas, que são muito pequenas e que, por vezes se sentem, diria, quase esmagadas pelo peso de uma Igreja que é muito grande e muito maioritária. Penso que sentiram que lhes demos um lugar e percebemos também que isso as tocou. Quisemos valorizar essas experiências e todos nos sentimos, como dizia agora o Cardeal Brás de Avis, a “pôr de lado as etiquetas e acolher o outro como Irmão”. É fundamental que saibamos estar juntos e ver que essa comunhão é também fonte da alegria Cristã.

 

Apesar do encontro ainda não ter terminado, qual é o balanço que faz desta participação de todos os Cristãos e da forma como foram acolhidos aqui? Qual é a sua visão dos dois lados: de quem acolhe e de quem é acolhido? Que caminhos há a fazer a partir daqui?

 

Não é fácil fazer um balanço, sobretudo estando ainda dentro da situação, sem ter uma distância para ver melhor, uma visão mais alargada do que aqui vivemos. No entanto, há dois aspectos imediatos que eu vejo. Um é a alegria das pessoas em aqui estar, tanto das que vieram de fora, como das que acolheram. As que vieram de fora, ainda mais marcante talvez, sabendo o quão cansativo este encontro pode ser. O quanto vocês andaram aqui, a viagem que fizeram até aqui chegar, as condições simples de alojamento em que alguns estão, os banhos frios que alguns tiveram que tomar, a simplicidade das refeições. E tudo isso não pôs uma única nódoa à alegria que estão a viver e eu acho que isso interroga… No fundo, onde é que está a fonte dessa alegria? Onde é que está a fonte da felicidade? Será nesse comodismo, nesse bem estar material, que tantas vezes exageramos na importância que tem, ou será nesta fraternidade, nesta experiência de amizade Cristã, neste saber que somos acolhidos por Cristo, e que Cristo nos reúne como irmãos e irmãs. Não é isso que é a verdadeira fonte de felicidade e alegria? Ver isso nos rostos das pessoas que aqui estão, ver a alegria nos rostos das pessoas que acolhem, que antes de acolheram se calhar estavam a pensar: “No que é que isto vai dar? Quem serão essas pessoas?” E depois dão o passo em frente, atrevem-se a acolher. Eu vi várias pessoas que acolheram e estão radiantes com a experiencia que fizeram, os jovens que encontraram… Acho que isso é muito bonito, muito forte, e faz também crescer a confiança que temos. A confiança em Deus faz crescer a confiança nos outros, que não é uma confiança ingénua, é acreditar nas pessoas e acreditar que cada um é algo bom. E quando nós procuramos valorizar essa bondade que está dentro de todos nós, às vezes está escondida mas está lá, quando isso vem ai de cima, podemos compreender-nos, podemos aceitar-nos e podemos viver uma comunhão muito concreta e muito bonita. Às vezes basta pôr as pessoas juntas, e depois deixar acontecer. Pedir àquelas que acolham: “Abram a vossa porta!”, àquelas que vêm, “Deixem-se ser acolhidas!”! Partilhem aquilo que tem, aquilo que são, e vão ver que vão viver algo de muito bonito. Portanto, a Confiança nas pessoas.

Outro aspecto que me pareceu muito bonito foi a intensidade dos momentos de oração que tivemos, dos momentos de oração comunitária, com milhares de pessoas naquelas Igrejas. Às vezes com alguns turistas que vêm e o silêncio que se fez! O canto como foi participado… Na Praça de S. Pedro, no meio da cidade e o silêncio que se viveu. Havia pessoas que estavam ao fundo da praça e que me disseram: “eu vivi um momento de silêncio muito intenso.” Como é que isso se criou? Eu acho que com muita simplicidade, não é preciso irmos buscar grandes coisas… Reunimos as pessoas, pomos Cristo no centro, e depois Ele trabalha nos corações. Esses momentos fortes de oração marcaram-me muito. Um aspecto que me interrogou de certa forma foi também numa Paróquia onde eu estive de manhã no primeiro dia. Sabia que a paróquia não estava muito bem organizada, não sabiam como é que haviam de fazer. Na oração da manhã as pessoas entravam na Igreja e falavam umas com as outras. De repente há um que pega na guitarra e dá a primeira nota e começa toda a gente a cantar. Aquilo entrou ali dentro do esquema da oração com a maior das naturalidades, como se todas as pessoas soubessem o que tinham que fazer e parecia que estava tudo perdido no início. No final da oração, uma pessoa da paróquia disse: “e agora vamos fazer uns pequenos grupos de partilha, nós escrevemos os vossos nomes numa folha, estão ali 3 folhas, vocês têm 5min para ver onde está o vosso nome, e depois cada um vai para o grupo a que foi atribuído. Eu disse: “Isto vai dar uma confusão. Primeiro que eles encontrem o grupo para onde estão inseridos, vão estar meia hora até conseguirem sentar-se…” Ao fim de 5min estavam os grupos formados! De facto, basta as pessoas quererem e funcionam! Basta as pessoas saberem que o que estão a fazer tem sentido, e as pessoas aderem e as coisas correm com uma simplicidade impressionante! Portanto, a simplicidade de meios que houve, não impediu a comunidade do encontro.

 

 

 


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